segunda-feira, 2 de julho de 2012

Contar é estratégia inicial no Soto Zen



(Cerimônia de Jukai, praticantes fazem votos tradicionais perante um mestre e a comunidade)


     Pergunta: Quando faço zazen começo contando a respiração e me parece que ela modifica um pouco, na Índia há mestres que proíbem a contagem...
     Monge Genshõ: Contar é uma estratégia inicial para ter um foco. Na Índia há um milhão de diferentes abordagens. Na Escola Soto Zen nós sentamos, começamos com uma respiração abdominal, começamos com uma respiração profunda, proposital, umas três vezes para esvaziar os pulmões. É possível fazer assim também (inclina o corpo para a frente, relaxando). Essa última técnica Saikawa Roshi ensinou. E depois disso não ficamos tentando fazer uma respiração especial. Saikawa Roshi mesmo me comentou que algumas técnicas de respiração podem provocar efeitos muito perturbadores. Nós podemos dar explicações fisiológicas para isso também. Se vocês quiserem tentar uma respiração assim...(profunda e rápida) dentro de 20 segundos estarão tontos -hiperventilação. E continuando mais um pouco podemos ter alucinações. Isso é possível conseguir simplesmente com hiperventilaçao e dá mal estar generalizado no corpo. Isso muitas vezes acontece com pessoas que estão muito nervosas e começam a respirar (ofegantemente) e se sentem muito mal, nauseadas. Para corrigir a gente dá um saco de papel para colocar no rosto e diz - respire aqui dentro. E a pessoa nervosa respira um ar viciado dentro do saco e começa a se sentir melhor muito rápido também, porque o que havia era excesso de oxigenação no sangue – hiperventilação. Então, voltando para o zazen, isso que eu acabei de explicar é unicamente fisiológico. Às vezes coisas que são fisiológicas são usadas em práticas ditas espirituais para fazerem as pessoas acreditarem que a prática em si tem algum valor. É só um efeito químico no caso.
     No zazen simplesmente esvaziamos e depois deixamos que esta respiração que é natural, é a maneira como os nenês respiram, se estabeleça. Relaxamos o abdômen e respiramos assim porque esta é a respiração natural. Com roupas apertadas, cintos, tensão nervosa, as pessoas às vezes estabelecem a respiração levantando os ombros o que provoca dores nas costas e é uma respiração pouco efetiva, há partes do pulmão que colapsam, deixam de funcionar.
     Não basta praticar zazen, fazer práticas espirituais. Você tem o corpo como instrumento e deve fazer atividade física. Os monges durante muitos séculos tinham que trabalhar no mosteiro, trabalhar na lavoura, rachar lenha, carregar pedras, então não precisavam uma atividade física especial. Então as pessoas faziam exercícios naturalmente. No último século nós fomos ficando muito sedentários, tudo ficou muito fácil e isso está prejudicando esse aspecto dos nossos corpos, embora a saúde em geral tenha melhorado por causa da melhor alimentação etc. Mas os monges Zen nos mosteiros com alimentação frugal, correta, com trabalho e meditação, tornaram-se famosos por sua longevidade com lucidez. Longa vida lúcida. Já falei tantas vezes mas nosso atual superior na ordem Miyazaki Zenji abade do mosteiro de Eihei-Ji está com 106 anos(nasceu em 1900) e está ainda como abade e em atividade. É claro, é um caso excepcional. Joshu (um famoso mestre Zen) é tido como vivido 116 anos e quando ele estava morrendo um aluno perguntou: mestre diga-nos alguma coisa. Ele disse: eu não tenho nada para dizer. Mas diga-nos alguma coisa. Ele disse: - a vida é um sonho - e morreu. Cento e dezesseis anos.


(Miyazaki Zenji morreu em 2008 com 108 anos, o texto desta palestra é anterior em dois anos)


Postado por Monge Genshô - O Pico da Montanha é onde estão os meus pés

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